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Trabalho incansável da assistência social garante direitos aos brasileiros de Norte a Sul


Foto de equipe da assistência social e São José dos Campos, estado de São Paulo

Quase metade dos brasileiros já foi atendida alguma vez em uma unidade de assistência social. Hoje, mais de 27 milhões de famílias – perto de 100 milhões de pessoas – estão registradas no Cadastro Único do Governo Federal. E o registro no Cadastro, porta de entrada para dezenas de programas sociais, é feito por um dos mais de 260 mil trabalhadores da rede pública que atuam no Sistema Único de Assistência Social (Suas) em todo o Brasil.

São profissionais diversos, assistentes sociais, psicólogos, advogados, auxiliares administrativos, educadores sociais, sociólogos e antropólogos, nas localidades onde há forte presença indígena. E, para todos eles, resiliência – a capacidade de lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas – é palavra chave na rotina diária.

Foto da assistente social Iara Maysa

Assistente social Iara Maysa: “A gente consegue trazer toda a família para participar”

A assistente social Iara Maysa Gonçalves de Brito, 33 anos, vê seu trabalho como “uma profissão em que você se angustia, se envolve com as causas. Você se depara com situações muito difíceis”. Segundo ela, no começo da sua vida profissional, tinha insônia, sentia dores de cabeça fortíssimas pensando nas situações que vivenciara nas visitas e nos relatos das pessoas que a procuravam. “É uma profissão em que você se depara com negligência com idoso, com deficiente, com criança... Já senti vontade de chorar na frente do usuário”, conta ela.

Nascida em Itaporanga, no Vale do Piancó, sertão da Paraíba, ela trabalha nos Centros de Referência de Assistência Social (Cras) de Pedra Branca, município vizinho, e de Patos, a pouco mais de 100 quilômetros de sua casa. “Hoje já enfrento com mais maturidade, não levo para casa os problemas que a gente vivencia no dia a dia”, explica. “A gente atende 15, 20 pessoas por dia com problemas muito graves, que trazem relatos sofridos. Enquanto escuto, vou pensando em como elaborar um caminho para esta pessoa, para onde encaminhar”.

Formada em Serviço Social em 2003, ela sempre trabalhou em Cras. Em todo o país, são mais 7,5 mil unidades mantidas pelos governos federal, estaduais e municipais. É onde as famílias procuram informações, ajuda para melhorar de vida. “Nos Cras, os usuários confiam na equipe, assistentes sociais, psicólogos, e as pessoas começaram a buscar mais nosso apoio”, diz. “Mesmo pessoas com formação vêm procurar a gente para pedir algum encaminhamento. Até para resolver problemas conjugais já chegamos a ser procurados”, brinca Iara Maysa.

O trabalho para auxiliar as famílias a melhorarem de vida é constante. “Fazemos um acompanhamento muito próximo. A partir das crianças que participam do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, a gente consegue trazer a família para participar também”, explica.

Hoje, o sucesso do Pronatec para o público do Brasil Sem Miséria, por exemplo, vem da intermediação que a assistência social faz para negociar os cursos e vagas necessárias com o empresariado local e mobilizar as pessoas para se inscreverem, participarem da qualificação e arrumar um emprego melhor. “Ajudamos as pessoas a descobrir suas potencialidades. Até mesmo estudamos o que o município tem a oferecer, para que possamos dar palestras, fazer orientação, tudo a partir das próprias famílias”, conta Iara.

Segundo ela, não é possível se desligar do trabalho, mesmo em momentos de lazer. “Às vezes estou com amigos, em um restaurante, e chega um menino vendendo uma balinha ou um bombom. É trabalho infantil, né? Aí, eu começo: ‘quem mandou você vender isso aqui? Cadê sua mãe? Por que você não está brincando?’. E eu falo: ‘não vou dar dinheiro para você’. E começo a conversar com a criança, pois quero saber qual o contexto que a criança está vivenciando. É impossível se desligar totalmente”.

Toda vitória é comemorada. “Se a gente consegue que uma pessoa saia de uma oficina do Serviço e consiga ganhar dinheiro com aquilo que aprendeu, a gente louva. Conseguimos fazer o resgate de autoestima de uma pessoa”, conta a assistente social.

Um dos educadores sociais mais adorados pelas crianças de Pedra Branca é Eunildo Passos. No passado, ele foi mágico no programa da Xuxa. Ainda é ator, diretor e sonoplasta. Nascido no Rio de Janeiro, Nildo, como é conhecido, se radicou no sertão paraibano em busca de fazer a diferença. E, hoje em dia, oferece oficinas de atuação no Cras.

As crianças beneficiárias do Bolsa Família que participam das aulas estão estrelando o curta-metragem Menino de Rua, filmado e dirigido pelo próprio Nildo. “A história é de uma criança que vai morar na rua, vivencia tudo de ruim que existe e não gosta de ficar ali. Ele se esforça, muda de vida e ainda convence mais quatro amigos a voltarem a estudar”, explica o educador. “Temos muitos efeitos especiais, que as próprias crianças produzem a partir do que estudamos nas aulas”. E os alunos de Nildo sonham com o futuro que está chegando: querem ser médicos, pediatras, advogados e cantores, querem uma vida ainda melhor.

Foto de Selma da Silva com dois beneficiários

A assistente social Selma Silva (no centro): “Conquistamos as pessoas gradativamente. Depois de dois, três anos, vemos que nosso trabalho está completo”

Criando exemplos – “Adoro trabalhar com o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, com as famílias. O retorno é muito bom. E vejo os resultados, especialmente, com os jovens. Quando o adolescente que fez um curso está empregado, para nós é um ganho muito grande”, conta Selma da Silva, desde 2002 assistente social do Cras de Jacupiranga, município paulista no Vale do Ribeira, a menos de 200 quilômetros da capital.

Hoje com 52 anos, ela começou a trabalhar na assistência social como voluntária da igreja em uma organização não governamental que cuidava de crianças com deficiência em Cubatão, cidade da Baixada Santista onde nasceu. Acabou contratada e se tornou secretária da entidade. Mas não podia tomar providências para ajudar as crianças e suas famílias por não ser assistente social.

Depois de fazer faculdade, Selma foi indicada para trabalhar na prefeitura de Iguape, também na região do Vale do Ribeira. Entre 1998 e 2002, ela estruturou a assistência social em Iporanga, município vizinho. Hoje, coordena o programa Bolsa Família, o Renda Cidadã, do governo estadual, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e ainda faz reuniões periódicas com 54 mulheres.

Infográfico com dados da assistência social “São pequenos passos. Conquistamos as pessoas gradativamente. Depois de dois, três anos, vemos que nosso trabalho está completo, que o serviço está realizado. É gratificante”, explica a assistente. Ela conta o caso do seu Joel. “Ele é ex-presidiário, toma remédio. Depois que saiu da cadeia, virou morador de rua. Para nos aproximarmos dele, foi muito difícil. Hoje, ele vem nos procurar. Conseguimos o BPC para ele, arrumamos lugar para ele morar”. No dia que recebe o benefício, seu Joel passa no Cras para contar que está indo pagar o aluguel. “Ele está quase pronto para seguir a vida dele sem a assistência social”, comemora.

Selma destaca que elas ajudam muito, mas que a solução para melhorar de vida depende das próprias famílias. “Em um primeiro momento, têm casos em que a família vem tão destroçada, que a gente acha que não vai dar conta. Nesses casos, a gente faz o atendimento, anota os principais dados e leva para reunião de equipe, para debater com a psicóloga, com a diretora. Mas temos que esperar o tempo deles, eles estarem prontos para nos procurar para ajudá-los. Se forçar, perdemos a pessoa, perdemos o relacionamento”.

A alegria constante estampada no rosto da assistente brilha ainda mais quando ela conta a importância do Cras no município. “Em uma cidade pequena, as pessoas procuram muito a assistência social, para todos os serviços: saúde, educação, liberar visitas para pessoas presas, documentação para auxílio reclusão. As pessoas sabem que têm os direitos, mas não sabem como fazer. Nós ouvimos e encaminhamos para outros departamentos, explicamos como elas devem proceder”, afirma. “E se eu não tiver empatia, se eu não me colocar no lugar do usuário, eu posso me aposentar. Temos que ser sensíveis às situações de cada uma das famílias, para entender e ajudar”.

Texto: Márcio Leal
Reportagem: Ana Paula Siqueira e Luiz Cláudio Moreira

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